Uma das minhas funções no Adoro Cinema é ler os pressbooks de filmes, para a confecção de novas fichas para o site. De vez em quando surge algo inusitado, que chama a atenção. O de
Show de Bola, filme alemão que se passa no Rio, tem vários destes momentos. Segue logo abaixo alguns deles, retirados do trecho em que o diretor Alexander Pickl comenta sobre as filmagens:
“É claro que havia um problema de trabalhar com crianças da favela. Nunca tÃnhamos certeza se nossos atores principais compareceriam no dia seguinte para a filmagem. Eram justamente esses que querÃamos hospedar num hotel. Todos se negaram e continuaram pernoitando em suas favelas com suas famÃlias. Ou seja, sempre tÃnhamos medo de que nossos atores principais entrassem numa briga de gangues e fossem mortos.”
“Precisamos andar uma vez à noite ao longo da Av. Copacabana, caso queiramos ver qual o valor que tem o futebol no Brasil. Ali realmente cada centÃmetro quadrado está marcado para campos de futebol de praia.”
“Eu sabia que futebol era importante para as pessoas no Brasil, mas que substituÃsse a religião, isso eu não podia imaginar.”
“No Rio de Janeiro e nas favelas, de qualquer forma reina a anarquia e o caos. Quando se combina hoje numa favela um horário de filmagem para amanhã, pode acontecer que se acabe no meio de uma luta de bandos, nem sendo possÃvel usar o cenário do local.”
“Muitas vezes éramos alvo de tiros. Uma vez fomos presos pela polÃcia militar e ameaçados pela máfia das drogas.”
“Vimos tudo, até mesmo esquinas como a Villamimosa, que, como turista branco, realmente deveria ser evitada, se não quiser ser morto a tiros depois de 50 metros.”
“TÃnhamos ainda um outro contato com um expert, que atua como guia nas favelas e consegue extorquir muito dinheiro dos turistas.”
“Na zona norte, um bairro onde fazem vodu, só nos foi pedido comprar um certo número de telhas, cimento e tábuas para que eles pudessem arranjar um pouco o seu negócio de vodu. Uma experiência bizarra.”
“Como pode ser visto muito bem no filme, vistas a distância, as favelas parecem colméias de abelhas. Em Cantagalo, uma das favelas, descobre-se, de muito longe, no meio desse favo cinzento, uma construção branca e muito alta, que se parece com aquilo que imaginamos ser uma vila de um barão das drogas da Colômbia.”
“Por sorte não existe cinema com estÃmulo olfativo. Em muitas favelas foi necessário juntar todas as forças para que a equipe toda não vomitasse sem parar. O mau cheiro era imenso.”
“Não existe falta de tecnologia no Brasil. O fato de que o reconhecimento internacional dos filmes brasileiros fica negado com poucas exceções está relacionado ao fato de que os produtores de filmes de renome se ocupam praticamente apenas com a situação polÃtica do paÃs e se deparam com incompreensão e falta de interesse no estrangeiro.”
“Eu teria amado filmar, na zona norte, um dos rituais das lendárias magias da macumba. Mas a zona é considerada muito militante e perigosa. Não é raro que atirem dos telhados das casas sobre carros que passam nas rodovias.”