Está lá na contracapa do DVD: “uma diabolicamente divertida, corajosa e emocionante história sobre como sobreviver a uma infância nada convencional”. O que me chamou a atenção foi o “diabolicamente”. Como isto poderia se aplicar em um filme? Humor negro, talvez? Não sei, pensei. Aluguei e, literalmente, paguei para ver.
Para começar, não se trata de uma comédia. Um erro que tem se tornado corriqueiro no Globo de Ouro, vide os casos de O Mundo de Andy, Ray, Piaf e Jogos do Poder. Mas isto é o de menos. O filme aborda a história – real, por mais incrÃvel que possa parecer – de Augusten Burroughs, que antes de completar 15 anos tinha sido abandonado pelos pais e vivia com a famÃlia do psicólogo de sua mãe.
A surrealidade de como foi a vida de Augusten impressiona, chamando a atenção para um conflito bastante atual para os pais: como medir a liberdade e a repressão na criação dos filhos. Augusten teve a vida que muitos sonharam para si: liberdade total, sem a necessidade de ir à escola e tendo condições de fazer o que queria desde muito cedo. As distorções provocadas por tal educação, tanto para o bem quanto para o mal, são nÃtidas. É claro que tudo se torna ainda mais drástico ao constatar como era a famÃlia Finch, repleta de personagens incomuns e bizarrices. Mas, mesmo antes de Augusten passar a viver com eles, estas distorções são perceptÃveis. Ou seja, a situação ampliou os efeitos mas eles já estavam lá. Ver a repressão extrema é de certa forma comum no cinema, mas não a liberdade extrema. Ainda mais aplicada numa situação que, vale a pena ressaltar, é verÃdica.
De certa forma Correndo com Tesouras lembra os filmes de Wes Anderson, por colocar seus personagens em situações insólitas e excêntricas. Entretanto o mais importante do filme é mostrar que não existem fórmulas exatas para se obter sucesso ou fracasso, algo que depende muito mais do modo como cada um lida com as adversidades que a vida apresenta. Bom filme, mas que definitivamente está longe de ser uma comédia.










